Cérebro Mastigado

Terça-feira, Setembro 19, 2006

De dentro de um caminhão


Janela aberta. Ventos em combate com os ouvidos. Quadros a se moldarem e desmoldurarem em fração de segundos.
Visão extrapolada.
Não só pelos retrovisores, revelando o meio-fio rente ao veículo, tampouco o deslumbre em forma de paisagem e o carregamento a ser transportado por longos itinerários.
Mas pela reflexão travada entre tantos paradoxos a se insurgirem meio ao caminho.
O caminhoneiro era Cleyton, carregando por oito anos soja do Tocantins ao Maranhão. Meio ao caminho, cruzamos nossas rotas. A aproximadamente 200km de Balsas, seu destino final, amigavelmente, segui com ele de carona, de Estreito-Ma, até a cidade de Carolina-Ma.
Cerca de 100km de estrada e de papo; e de forró na rádio!
Cleyton trabalha no mundo externo, desbravando sempre novos horizontes- ali corroborei que o caminho pode ser o mesmo, mas um pôr-do-sol nunca é igual ao outro. Por outro lado, passa a semana inteira sem ver e até mesmo saber notícias da família; Depois de dada a partida, é ele quem faz seu próprio horário, calculando apenas a hora de chegada, não se submentendo a ordens superiores para fazer um lanche ou dar um descanso qualquer. Contudo, se passar demais do horário, pode ser que tenha que passar a noite toda mudando a marcha para a sexta, a 20km/h, a cada subida pela frente.
É aí que tudo vai se tornando tudo muito igual, rotineiro, cuja graça vai se esvairindo junto com as motivações. Talvez até com razão, Cleyton já não vê graça alguma em ver um pôr-do-sol: "De que adianta?", perguntou-me. Realmente para ele, não faz diferença alguma deixar de contemplar a paisagem hoje, porque amanhã certamente poderá fazê-lo.
Retruquei com lamúrias: "quisera eu poder fazer tudo o que faço de dentro de um cubículo de 4 paredes, da frente de uma tela plana de computador, dos toques insistentes dos telefones e dos diversos pedidos estarrecedores de ajuda, vendo, ao mesmo tempo, simplesmente, a cor do céu mudar. A primeira coisa que mudaria seria o humor. "
Mas certamente, um dia passaria a não mais me importar, assim como ele.
É quase que sempre preciso que o Sol nos cegue momentaneamente para entendermos o quanto é bom enxergar.
Quando Cleyton precisa mudar seu caminho, ou lhe é designada nova rota, desconhecida, conta com a ajuda de "chapas". Os Chapas estão sempre a observar os caminhoneiros, ajudando-os em seus trajetos e carregando e descarregando suas mercadorias.
Naquele dia, eu fui a "chapa" do Cleyton. Ajudei-o a descarregar seu tédio ao perfazer o suplício de sua labuta.
Mas o que eu queria mesmo, é ter tido a capacidade do Sol.
Qual seja o infinito desejo, de muitas das vezes estar em seu lugar, passando a sexta marcha a 20 km/h, a cada subida pela frente.
*Lembranças à minha cara amiga Sassa que esteve diante da mesma visão (a qual basta simplesmente a do retrovisor).

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