Cérebro Mastigado

Segunda-feira, Agosto 21, 2006

"Paranpara"

Todo mundo já acordou um dia e pensou:
- "Chega, agora vou falar o que eu preciso, o que eu penso!"

Desabafar não é bem isso; isso é o que chamamos normalmente de “chutar o balde”. Desabafar faz bem porque tem um outro propósito. O de unir, repensar, mudar hábitos e até fazer concessões, porque desabafar é falar francamente, sem ludíbrios consigo mesmo ou, ilusoriamente com os outros.

O desabafo é um grande aliado cicatrizante de feridas, amenizador de grandes perdas, e um grande criador de laços entre as pessoas.
Se todo mundo desabafasse- não guardasse consigo os sentimentos bons ou ruins- nenhum obstáculo se tornaria um trauma e nenhuma péssima escolha se tornaria um complexo. Fale que ama, fale que odeia, fale que se sente incomodado, tolhido, querido.

Mas cuidado! Mais importante que desabafar é saber para quem desabafar. Não se pode “chutar o balde” externalizando todo e qualquer sentimento sob pena de ignorantes percepções e mal compreensão. O desabafo é sim um conhecimento, o conhecimento mais íntimo e penoso de alguém.
Se uma pessoa que mal completou o ensino fundamental lê Durkhein, terá uma análise bastante diferente da sociedade que detinha anteriormente, mas sem dúvida alguma, ainda será bastante ínfima e incompleta em relação a um outro que tenha se dedicado à filosofia e sociologia stricto sensu. Percebam, a diferença com que estas pessoas lidarão com os novos conhecimentos será muito aquém uma da outra. E assim deve ser nosso desabafo, o que para surtir o propósito ideal, deve ser ouvido por quem detenha martelo tão somente nos ouvidos, e não nas mãos, a exemplo de milhares de tirano-julgadores que batem o martelo sobre a mesa, impondo seus conceitos.
Paranpara é uma tradição hindu de transmitir oralmente os ensinamentos. Os gurus são alguns destes contadores de histórias que tentamos ouvir e aprender.
Há pouco mais de 100 anos, Freud também desenvolveu uma espécie de Paranpara inaugurando a psicanálise e definitivamente oficializou o valor terapêutico de contar a própria história. Desabafar é a garantia da liberdade de expressão e a escuta por alguém de confiança.
Ao se contar a própria história, ouve-se o eco das emoções, e o que está no interior se expande. O que é realmente importante ganha forma e faz sentido. Quanto mais se repete o mesmo desabafo, mais se vê as coisas por ângulos diferentes. Conectam-se os fatos com as emoções e aumenta-se com isso a possibilidade de aceitar que a vida é um fluxo constante, que as coisas mudam a todo momento. São relatos provenientes de desabafos que nos remetem ao que é essencialmente humano: amar, nascer, morrer, querer, ganhar, perder.

Neste mundo louco e moderno já detemos formas virtuais e digitais de Paranpara. O ORKUT, site de relacionamento super badalado, é uma maneira de fazer uma descoberta sobre você mesmo quando tem que explicar ali quem é você e como gostaria de ser visto. Os Blogs –como este- são outro tipo ainda mais parecidos com os antigos diários e álbuns testemunhais que contam nossa trajetória, mesmo que indiretamente. Desabafar nada mais é que contar nossa história com respeito e vontade de mudar.
Portanto, pare de chutar o balde e desabafe devagar e com amor...

! Paranapara para você!

Quarta-feira, Agosto 16, 2006

O quantum de querer

foto: Bar da pedra; Algodoal-Pa
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Querer pouco talvez baste;
Querer muito talvez se torne inalcançável;
Como não existe uma balança medidora de quanto uma pessoa deve querer algo para poder obtê-la, resta-nos estabelecer limites.
Você mataria para ficar com a pessoa desejada? Você roubaria para aumentar seu patrimônio? Você casaria com uma estranha para adquirir uma nacionalidade estrangeira? Você sairia em busca do puro prazer, arriscando sua estabilidade familiar?
No ringue estão, de um lado os valores éticos e morais (razão); do outro, o elemento mais subjetivo da emoção, o querer, o ter vontado de algo.
Na briga, a única regra a seguir é quanto ao limite. E existe limite para a vontade?
Existe. O tudo é o limite. A exemplo de Schopenhauer, vontade é "um tudo", onde as coisas são múltiplas quanto à representação cognoscitiva, mas são idênticas na sua essência. Para quem não entendeu nada, o motivo do querer pode ser vários, e varia de acordo com o nosso conhecimento (inclusive o auto-conhecimento), mas a finalidade do querer, esta é específica. Queremos algo, para alguma coisa, certo? Ou para várias coisas. Para tudo, talvez. Mas nunca queremos algo para nada.
Assim, o indivíduo é o sujeito do conhecimento e encontra na vontade a sua própria existência fenomenal, descobrindo a força interior que produz o seu ser, as suas ações e o seu movimento.
Quando se realmente quer alguma coisa, nada obsta até que se consiga.
Ou seja, nada se limita, se Tudo for o limite.
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E Você, já sabe o que você quer?